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12/09/2018 - Folha de São Paulo

EUA recuperam 66% do valor desviado por Bernard Madoff

Dos US$ 20 bi recebidos no maior esquema de pirâmide do mundo, US$ 12,3 bi já foram recuperados
Por: Danielle Brant

Recuperar o dinheiro desviado das cerca de 24 mil vítimas do maior esquema de pirâmide do mundo tem se mostrado um desafio para Irving Picard.

Administrador apontado pela justiça americana para a tarefa, ele conseguiu, até agora, reaver US$ 13,278 bilhões (R$ 55,2 bilhões) dos US$ 20 bilhões (R$ 83,2 bilhões) que o financista Bernard Madoff recebeu de investidores que acreditavam que estavam plicando o valor.

Isso equivale a uma taxa de sucesso de 66%. Ou, em termos monetários, US$ 0,66 de cada US$ 1 desviado.

Mas nem todo esse dinheiro vai parar diretamente nas mãos das vítimas que entraram com uma ação para recuperar o que investiram.

De acordo com dados atualizados no último dia 24 de agosto, US$ 11,275 bilhões foram distribuídos a quem tem direito de receber.

Esse dinheiro é recuperado a partir de acordo feito por autoridades americanas com fundos e instituições que receberam os recursos das vítimas.

A cifra de US$ 20 bilhões calculada por Picard é bastante inferior aos US$ 65 bilhões que haviam sido estimados à época do escândalo, no calor dos acontecimentos.

A diferença se dá porque Madoff forjou uma série de documentos em que dizia aos investidores que tinham direito a um retorno financeiro que somava US$ 65 bilhões, enquanto o desvio em si somaria um valor menor, de US$ 20 bilhões.

Madoff, condenado, em junho de 2009, a cumprir pena de 150 anos de prisão, estruturou a pirâmide ao longo de décadas —alguns situam o início da fraude nos anos 1980, outros chegam até a década de 1960.

Nascido em uma família de classe média no distrito de Queens, em Nova York, ele desde cedo frequentou os círculos que abriram as portas para que alcançasse os endinheirados da cidade norte-americana.

Madoff, que foi presidente da Bolsa de tecnologia Nasdaq no início dos anos 1990, tinha um ar de respeitabilidade e credibilidade que convenceu diversos investidores de que ele era o homem certo para alavancar o dinheiro que tinham para investir.

Entre as vítimas conhecidas do financista estão os atores Kevin Bacon, John Malkovich e Kyra Sedgwick, o apresentador de televisão Larry King, além de fundos de pensão e instituições de caridade.

O retorno financeiro prometido era muito próximo àquele entregue pelo indicador S&P 500, uma das referências no mercado acionário norte-americano, mas sem a volatilidade do índice —o que, no entanto, não acendeu o sinal amarelo de ninguém.

O corolário financeiro prega que risco e retorno andam de mãos dadas: quanto mais alto for o grau de incerteza, maior tem que ser a expectativa em relação à recompensa, para que o risco valha a pena.

O esquema desenvolvido era uma pirâmide tradicional.

Um operador central (no caso, Madoff) recolhia os valores e usava esse dinheiro para pagar os retornos prometidos para os primeiros a entrarem na fraude.

O horizonte de ganhos cada vez maiores evitava que os investidores pedissem o resgate do dinheiro, em uma engrenagem que flui enquanto houver a entrada de novos participantes no esquema e em um cenário no qual os antigos não queiram embolsar o lucro.

Quando era confrontado com questionamentos sobre essa estratégia de investimento, Madoff usava como explicação termos vagos, mas que poderiam fazer sentido, como uso de derivativos para proteger os investidores de volatilidade.

O pânico gerado nos investidores pela crise financeira de 2008, porém, selou o fim da fraude.

Com as ações derretendo e fundos com perdas diárias, muitos pediram o resgate do dinheiro que tinham com Madoff.

Ele se viu em uma situação em que precisava pagar US$ 7 bilhões a investidores, mas com acesso a “apenas” cerca de US$ 250 milhões.

No início de dezembro de 2008, ele contou aos filhos, Mark e Andrew, que o negócio no qual eles trabalhavam era uma farsa.

Ambos relataram a fraude a agentes federais.

No dia 11, Madoff se entregou às autoridades. Sua família ruiu junto com o escândalo. Os filhos pararam de falar com o pai e fizeram a esposa do financista, Ruth, escolher entre manter contato com o marido ou participar da vida dos netos.

Exatos dois anos depois da revelação da fraude, seu filho mais velho, Mark, cometeu suicídio. Em setembro de 2014, Andrew, seu outro filho, morreu vítima de um câncer.



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